dia 1
Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
Hoje é dia dos enganos. Coincidência?
Como qualquer aventureiro que se preze, pus de lado o avião e ponho-me a caminho na minha máquina diabólica: o Alfa Romeo 75 2.0 TS Rosso Alfa. Ora digam lá se não é o carro do verdadeiro aventureiro?
Saio de casa de manhãzinha para aproveitar o fresco. Esta neblina às cinco da manhã! Decidi rapar o cabelo em boa altura. Nota mental: comprar um agasalho para a tola. Ora aí está um bom quadro, Carro quadradão dos oitentas e ganapo trintão com boné na cabeça… Está um frio que me corta a pele tal como a respiração. Olho de relance para o painel para ver a temperatura, mas logo me lembro que o carro do verdadeiro não tem semelhante luxo. Paciência, o verdadeiro não treme com um friozinho matinal. Ou treme?
O som rouco do motor rasga o silêncio matinal. Passa do ronronar de um leão na savana para o uivo de um lobo que ecoa nas estepes. Depressa chego à estação de serviço para um aconchego ao estômago. A empregada não consegue disfarçar o espanto quando saio do carro. Será do boné conjugado com a barba já com uns pelitos brancos? Eu não consigo deixar de pensar no que ela esperava que saísse do carro. Para cortar com a história, ao sair do estacionamento, desenho um onze na estrada com os pneus. O barulho deve-se ter ouvido nas portagens. Não contente saco um drift no acesso á auto-estrada. Ora aí está o verdadeiro a actuar! Cinco e meia da manhã e já me estou a comportar como um catraio, tudo corre como planeado...
Durante esta primeira parte da minha epopeia nada a declarar. Como não seria de espantar com a máquina infernal a velocidades proibidas cedo dei por mim a atravessar a fronteira. Seis e meia da manhã e já estou em Espanha, nada mau. Nota mental: acertar a hora quando parar. Paro passados nem dois minutos!… Acerto o relógio: Sete e trinta e cinco locais, a hora continental europeia é que me vai interessar a partir de agora. Primeira questão: paro quando chegar a Léon ou continuo a ganhar tempo ao relógio? Tenho mais de duas horas e meia para pensar. Dez e meia, estou a chegar a Léon, mais meia hora ganha, vou sair da auto-estrada. Ainda não cheguei ao primeiro verdadeiro ponto de interesse e já me comprometi em visitar os sítios por onde passei e andei. O meu corpo já pede para eu parar. Paro em Léon.
2ºparte
Hoje não consegui dormir, talvez pela expectativa desta viagem. O quadro já começa a aparecer. O carro, a viagem, sozinho. Será que é desta que começo a contrariar a curva descendente?
Deixo-me de dúvidas que só têm lugar no psiquiatra, Léon corta-me a respiração, tal como o estômago me começa a cortar as forças. É chegada a altura de parar.
Historicamente Espanha serviu como um tampão da cultura europeia em relação a Portugal, por isso temos uma cultura tão própria e única. Quando entrei em Espanha só aí senti que estava na Europa continental, Portugal e Galiza é qualquer coisa à parte, como se fôssemos um país àparte de tudo o resto que é ocidental. Léon faz-me sentir assim, Português.
E corta-me a respiração. Estes dez minutos a dar voltas começam-me a fazer repensar o plano de viagem, se calhar nesta epopeia até Stélvio faço um desvio a Dijon para matar saudades. Tenho de parar o carro e andar um bocado a pé. Ver alguns destes postais de viagem. Fico por cá para almoçar. Mas para já uma Tapa. Para beber: un corto, porque o dia já vai longo e a minha regra de não beber de manhã acho que desta vez se pode contrariar. Para adoçar: mantecadas. Agora sim o Sol já parece sorrir.
Uma volta pela cidade.
A catedral de Léon... - Está decidido, faço o desvio para Dijon - A catedral de Léon (igrejas são a minha forma arquitectónica favorita) é uma maravilha do meu estilo arquitectónico preferido, o Gótico. Daí a decisão de matar saudades de Dijon.
A catedral de Léon. Acabo por queimar o tempo que tinha para dar umas voltas, fixado na Catedral. Vê-se o resto de relance com o carro: Mosteiro de S. Marcos, o Palácio dos Guzmanes, a casa de los Butines(desenhada por esse ganda maluco que foi Gaudi) e o museu MUSAC, este sim, convenceu-me a cá voltar.
Almoço. Cocido léonés servido com uma sopa para abrir as hostilidades.
3ºparte
Stress pós-traumático de bem comer
Meto-me logo à estrada na esperança de não me deixar ultrapassar pelo ataque de endomorfinas que aí vem. O Sol da tarde na Meseta Ibérica até Burgos. Que programa interessante… duas horas de carro a vêr se não me estampo do sono. O Sol bate-me nos olhos ampliado pelo pára-brisas picado e arranhado pelas escovas do Alfa, nem as palas me protegem. 180km parecem 1000km! Quando chegar a Burgos tomo un corto.
A recompensa. A cerveja teve de abrir caminho na garganta colada. Un corto revelou-se curto. Outro. Agora sim, posso comer alguma coisa. O quê? Não vou gastar energias a decidir, Tapa, está decidido!
Burgos. Depois de Léon parece-me mais pequena de interesse, além disso não me posso desviar do objectivo e meter-me a caminho.
4º parte
Mais três horas de viagem e fecha-se o capítulo Espanha. Destino: Biarritz, logo a abrir França. Mais uma vez debato-me com os sintomas do Sol baixo e do cansaço de mais de 800km de trajecto durante todo o dia. Mas foi um bom primeiro dia pois Portugal e Espanha ficaram para trás. Pelo caminho ainda passo por Vitória e San Sebastian, mas nem paro, a próximidade dos Pirinéus fazem-me ougar pelos Alpes. A estrada entalada entre o Golfo da Biscaia à esquerda e os Pirinéus ao fundo à direita, com este Sol a desaparecer no lado do Atlântico é a tal paisagem que muitos gostam de chamar edílica, neste momento faz-me talvez um amargo de boca, pois de alguma forma me faz lembrar de um fim de semana com alguém que eu preferia esquecer. Engraçado como o coração teima em prevalecer sobre a consciência. Adiante.
Chego a Biarritz pouco antes das oito, mas sigo para Bayonne. Quanto a recordações ainda é pior a emenda que o soneto. Até o hotel me parece fazer vir à tona recordações. Um mau final para um dia que parecia estar a correr bem.
5º parte
Amanhã o programa promete: Bayonne, Pau, Toulouse, Narbonne, Marselha, Mónaco e Génova. Isto a correr muito bem! Atravessei Portugal e Espanha hoje, Amanhã terei de forçosamente atravessar França. Vamos vêr. Para já jantar no Lousteau, um hotel com vista sobre a baixa medieval, junto ao rio Adour. A vontade é conhecer esta cidade simpática. Depois de jantar vejo a disposição.
A disposição não chegou, ou seja, o melhor que vejo de Bayonne é esta vista estupenda do rio do pequeno quarto a preço simpático. Compensa em relação a Biarritz, talvez na volta por lá fique uma manhã a relaxar na praia. Tempo de ligar o computador e o telefone para verificar as mensagens. Mas que raio(!), eu disse longe de tudo. Férias de tudo e de todos. Ok, uma mensagem para a mãe e torno a desligar o telemóvel. Quando é que deixo de ser o menino da mamã?... Nem abro o mail! Apenas uma volta pela net e uma revisão dos contactos necessários para o dia de amanhã. Ligo a TV. Nada. Mais uma espreitadela pela janela e o sapo fica entalado na garganta… Será que volto?
Enfio-me na cama. O sono não aparece. O corpo e a mente continuam desregulados. Ligo a televisão, costuma resultar como sonífero. Nem assim. Levanto-me e fico sentado na cama com a cabeça segura pelos braços. Vou lá abaixo ao bar.
Peço um Kir. O fulano responde: “sim”. Estou tão imerso nos meus pensamentos que só dois segundos depois me apercebi. Retorqui: “tem cassis de Dijon?”. Responde outra vez em Português: “SÓ de Dijon!”. Encontram-se por todo o lado, por aqui até nem é surpresa, mas não tinha aspecto de ser Português. “como é que sabe que sou português?” perguntei. “Vi-o a chegar, com matrícula portuguesa. Das antigas”. “É um clássico, mas só o tenho à pouco. Comprei-o para esta viagem, custou-me mais recuperá-lo que adquiri-lo”. “Veio de Portugal com aquele carro, de onde?”. Senti a admiração... “Do Porto”. “Está de férias então, mas já esteve em França!” “Sim, já. Mas só umas semanitas. Como sabe?”. “Cá está, um Kir à portuguesa! caprichado”. Fez-se uma curta pausa. De menos de segundo. “Pediu um Kir, e isso não é vulgar num turista de fora”. “ Por cá à muito tempo?” perguntei confiante no sotaque típico de emigrante português em França. “Desde que nasci, os meus pais é que são portugueses, de Avintes”. Apeteceu-me rir... submerso no preconceito.
Ora aí está, um português nunca está só. E mais a mais até se esqueceu de me cobrar pelas bebidas: “Boa sorte na sua viagem!” Desejou, descrente da resistência da minha montada… Despeço-me e retiro-me.
Até me custa lembrar da porta do quarto! Por isso a numeração na chave. Genial! Agora sim, estou pronto para o descanso do guerreiro. No sexto canal um daqueles filmes franceses que aparenta ser dos anos setenta, clonados de Emanuelle. Os loucos dos anos setenta... Como os gostos mudaram. A historia decorre lentamente, e tudo o que se passa são as mamas minúsculas da artista principal. O argumentista parece querer explicar o caminho para chegar ao sado-masoquismo num ambiente romântico. Romântico literário. Romântico como a floresta Negra. O ideal para adormecer. Amanhã adivinha-se um acordar ressacado pelo branco seco do Kir.
Dia 2
Quinta-feira, 2 de Abril de 2009
O dia dos enganos passou-se e nem me lembrei.
Acordo com a ressaca esperada, conjuntamente com a azia, que embora não fosse de esperar, também não era uma completa surpresa. O Lanzoprazol também ficou para trás. Só trouxe mesmo muda de roupa para uma quinzena, portátil, telefone e os acessórios para o dia a dia. Refiro-me aos de higiene. Os chinelos de quarto do Lousteau eram geniais, até que mereciam o roubo da praxe. Mas isso é o que estão à espera de um português, logo ficam para trás.
Pequeno-almoço leve, check-out e hora de me meter a caminho. Olho para o Alfa. Cada vez mais sinto a ligação com o carro. Será psicose minha? Para já mais um dia ou dois de auto-estradas, mas depois, a merecida recompensa!
Foi uma noite repousante. Agora os Pirinéus de novo à minha direita. Estou em Toulouse a tempo do almoço.
Toulouse nunca me poderia surpreender porque simplesmente me passou até hoje completamente ao lado. Mas uma coisa me saltou logo à retina: o ambiente. Logo justificado pelo empregado da pequena esplanada onde me abanquei. Um quarto da população são estudantes. Talvez por isso o ambiente borbulhante e acelerado. E a concentração de decotes é altamente quente, tal como o clima neste dia solarengo e seco, não corre brisa. Faz-me lembrar Portalegre. Para almoço vou matar saudades do feijão e como cassoulet. Má escolha. Estranho o sabor das salsichas, ainda pior que Izidoro. Deixo esta cidade construida em tijolo burro com curiosidade de saber como será à noite.
Direcção Mediterrâneo, Marselha. Chego à costa, mais precisamente Narbonne. A partir daqui sempre ao longo do mar. As cidades ao longo da costa sucedem-se: Narbonne, Béziers, Montpellier, Nimes, Sallon-de-Provence, só paro em Marselha, após quatro horas seguidas sem parar. Tempo de aconchego ao estômago e de esticar as pernas.
Curioso o mosaico de culturas em Marselha. Como peixe seco numa banca magrebina regado com Ricard diluído com água. Até nem costumo ser grande adepto destas bebidas anisadas, mas que o peixe puxa isso puxa! Que mistura explosiva!... Quando me preparo para sair de Marselha, menos de uma hora depois de chegar o estômago já clama por mais. Foi do Ricard diluído? E pelos vistos diluído directamente nos meus neurónios, como se tivesse levado um chuto na testa. Não resisto a parar numa rua decadente mas luminosa entre o Mar Mediterrâneo e umas barracas de madeira cinzenta, velha e podre. A cabeça pede descanso, e a preguiça que me está a dar(!)… Encosto-me ao encosto de cabeça. Mas o ambiente é muito pesado lá fora. Decido fazer o menos aconselhável, sair do carro e caminhar um pouco, ao longo do cais de madeira. O ambiente é mesmo esquisito! Volto para o carro em menos de cinco minutos. Que quadro! O carro ambienta-se mesmo! Parece ser local! Hora de ir embora.
Vou ter mesmo de ir com tábua pregada! Mas mal entro na auto-estrada avisto dois carros patrulha em menos de três minutos. A estrada mais patrulhada do Mundo? Parece. E o meu carro parece ser a estrela deste filme, pelo menos desde que cheguei a Marselha.
Decido parar em Aix-en-Provence, passada apenas meia hora. Janto por aqui. E durmo por aqui também, pois estou a aproximar-me perigosamente de Mónaco e tem de sobrar alguns cobres para o resto da viagem. Fico no Hotel de France. Janto no Hotel de France. A entrada estilo artes e ofícios fica muito bem num hotel em Aix-en-Provence chamado Hotel de France, e o quarto é mesmo simpático
Dia 3
sexta-feira, 3 de Abril de 2009
Parto de manhã cedo mal o check-out me foi permitido: 7 horas da manhã. Não vou repetir os erros de ontem. França era para atravessar num dia. Meto-me a caminho. O meu carro continua a atrair olhares policiais como se tivesse mel. Nunca vi tantas patrulhas por quilómetro como nesta estrada, principalmente depois de me abeirar do mar. Decido sair da auto-estrada em Cannes. Apetece fazer a Côte d’Azur por estradas locais, apreciar a calma e o Sol locais.
Uma hora perdida em Cannes, onde tudo parece tirado de uma aguardela em tons pastel. Volto à auto-estrada. Destino: principado do Mónaco.
Chego ao Mónaco às dez e um quarto. Aqui o interesse vai ser passar pelo túnel e pela curva apertada incluídos no circuito urbano de fórmula 1. Continuo a achar que há polícia a mais por estas bandas. Hora de deixar a terra dos iates e partir de novo para a estrada. Passo ao pé de San Remo mas decido não parar, vou para Génova. Onde chego já depois da 1 hora.
2º parte
Itália! Que país maravilhoso! Sentímo-lo ainda antes de cruzar a fronteira. Maravilhosa cultura latina no seu pico! Outra boa notícia: chego hoje a Stélvio, o objectivo desta viagem.
Génova, cidade consagrada a um dos pecados capitais. A soberba. É sem dúvida o pecado mais insuportável. Mas perante o que nos entra pelos olhos a dentro… É uma cidade soberba, plantada numa encosta frente ao mar, com um porto magnífico e este peixe é delicioso! Gloriosamente regado a Cinqueterre, orgulhosamente básico. Faz-me lembrar algum vinho da casa que tenha bebido numa tasca em Portugal. Sinto-me em casa. Parece que estou na minha terra, mas com uma paisagem e língua diferentes. Pelo menos se eu pudesse ter uma segunda casa, a Ligúria seria a maior candidata. Léon valeu pelo que os olhos viram, Génova vale pelo que todos os sentidos sentem. Cada vez mais consigo o efeito pretendido quando me decidi por esta viagem. Hora de me levantar para os últimos 370 km para chegar ao Parque nacional de Stélvio, nos Alpes.
Cinco menos um quarto: Milão. Meu Deus, Itália é mesmo sumarenta! Concentrado de quadros edílicos. Prometo que paro só por uns minutos. Tanto para vêr... Tudo fica por ver! Muffin num McDonald’s e já estou na estrada de novo. Passo por Monza pouco antes das seis.
Agora sim, vou ver a personalidade do Alfa 75. Como ele se portou bem até agora no caos de Itália! Mas a partir de Monza entramos num Mundo completamente diferente: as curvas ascendentes até aos Alpes.
3ª parte
A estrada serpenteia, o Alfa comprova a sua agilidade com temperamento latino. As descargas de adrenalina sucedem-se, a máquina infernal solta os seus 150 cavalos tudo menos amestrados. O carro não ameaça virar-se contra mim, perdoa os pequenos erros, estende-me o braço quando parece querer fugir. Este carro quer a minha confiança. Mas por vezes parece também dizer nas entrelinhas que não vai admitir um abuso que seja. Esta é uma relação, um casamento entre o homem e a máquina. A máquina é uma senhora à mesa, com o seu conforto e equipamento e pose na estrada. Mas é uma louca na cama, entusiasmante e desvairada nas curvas e à saída delas. Impressionante a simbiose entre a estrada, a máquina e o homem. A direcção dá-me toda a informação que preciso, interpreta na perfeição todos os meus comandos. E que bem que medeia toda a minha relação com o asfalto.
Isto promete.